sexta-feira, 27 de novembro de 2009, 20:21
sorvete e Julia Child

Eu vim no busão pensando numa postagem melancolica, seguindo a linha das anteriores, movido por um mal estar característico de quem não come o suficiente - havia comido 750 calorias até então, o que parecia uma redundancia enorme para mim, mas não para o meu corpo. Minhas mãos tremiam e minha cabeça girava. Meu estomago queimava. Havia acabado de assistir o adoravel filme Julie e Julia, sobre os prazeres da boa culinaria, da vida e do amor. É um filme legal, que um dia, juntamente com outras historias, vai render um escrito meu. Quando sai, é claro, foi ao banheiro para me autoflagelar diante do espelho, odiando meu corpo enorme e gordo, segundo minha opinião. Foi nesse terrivel estado de espirito que vim chacoalhando dentro do onibus, amaldiçoando minha gordura e o fato de eu não estar andando a pé como deveria. Mal conseguia ler com meus olhos cegos de inanição parcial. Meu otimismo sagiatariano não permitiu que eu ficasse assim durante muito tempo. Desci e seguindo pela rua me deparei com uma sorveteria. Sai de lá com 78 gramas de uma mistura gelada de chocolate, crocante e menta. Minha visão clareou, meus passos se tornaram mais firmes. Poizé. Me fez bem, me devolveu um pouco a estrutura. Nós subestimamos isso. Essa sensação boa de ter o corpo bem alimentado. Não buscar na comida um escapismo ou consolo ou valvula de escape. Mas buscar no alimento uma fonte de energia. A força que vc precisa para, juntamente com outras fontes, lidar com a loucura do mundo. Isso me lembrou o filme que eu acabara de ver. Julia e Julie entendiam isso. Que comida é importante e que o amor a comida não é um defeito - a boa comida, é claro. Os franceses são famosos por sua culinaria. Enquanto os americanos são famosos por sua obesidade. No país do segundo impera a junkie food, enquanto os franceses, que comem pão, queijo e vinho, mantem a forma. A fast food e os alimentos industrializados, não por acaso, não exigem muito de quem os prepara. Nenhum amor ou dedicação são colocados num big mac. Ninguem manuseia com capricho pratos assim. E essa é a comida que mais engorda. Sabemos como viver em equilibrio. Sabemos que não é nas embalagens de bolachas recheadas que vamos encontrar saude, mas muitas vezes, no calor fresco de um prato feito a mão. Sabemos que o equilibrio está num prato colorido e longe de conservantes, acidos e outras quimicas. Sabemos que no comer frutas, verduras, carboitratos e proteinas e gorduras mais saudaveis, feitos com cuidado reside a chave para uma existencia longe de muitos problemas médicos. Mas ainda assim o mundo cada vez mais se divide entre obesos e pessoas em eternas dietas. De certa forma é triste. Triste que pratos deliciosos sejam abominados em busca da nociva magreza enquanto por outro lado comida gordurosa e ruim seja celebrada em forma de uma venenosa gordura. Julia Child, que morreu em 2004, deve estar se revirando no tumulo. Quanto a mim, sei que amanhã (ou mesmo ainda hoje) estarei me arrependendo por esse sorvete, enojado com meu corpo e passando fome ou vomitando outra vez. Mas, como todo sagitariano bem humorado e otimista, espero que um dia isso mude.


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quinta-feira, 12 de novembro de 2009, 20:18

E eu não queria mais essa confusão. Eu não queria mais essa sonolencia. Eu me perdi, eu me perdi, eu me perdi - em qual privada eu vomitei sangue e afoguei meu eu? Não estou mais. Não sou mais. O vazio está me engolindo com doçura. Lentamente. E logo eu estarei seco como as páginas dos livros que eu leio. Fino como elas. Negado, como as figuras cadavéricas que eu procuro. Eu não sinto mais, o absoluto absurdo. Aonde está aquela dor? Ao menos ela me fazia companhia. Aonde estava o objetivo? Quando tudo se derreteu e eu comecei a viver morto, vivendo no escuro.

Preciso voltar. Mas nenhum porto parece visivel.

A terra está longe. Eu irei definhar.


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